1. O Carnaval Medieval: O Começo

A festa do Carnaval, chamada entrudo, foi introduzida no Brasil pelos portugueses, mas sua origem remonta à Idade Média e designava uma série de brincadeiras que variavam de aldeia em aldeia.

Para outros estudiosos, a história do carnaval é ainda mais antiga e está associada às Saturnais romanas, festas pagãs em honra a Saturno, e realizadas em dezembro. Durante as Saturnais, os escravos ocupavam o lugar dos senhores, satirizavam-nos e comportavam-se como homens livres. Talvez isso explique o fato do carnaval ser uma provocação à ordem instituída. Outros autores ligam a origem do Carnaval às Dionisíacas ou Bacanais, festas realizadas na Grécia e em Roma antiga em honra a Dionísio ou Baco, deus do vinho. Estas festividades incluíam manifestações de euforia com danças, provocações, cortejos musicais e encenações.

Mais tarde, os romanos católicos definiram o tom para as celebrações de Carnaval atuais, com uma festa antecedendo a Quarta-Feira de Cinzas, o primeiro dia da Quaresma no calendário cristão. Da Itália, o Carnaval se espalhou pela França, pela Espanha e por outros países europeus. Seja como for, o carnaval brasileiro está diretamente ligado ao entrudo medieval.

2. O “Adeus à carne”

O termo Carnaval é derivado de “Carne Vale”, que quer dizer “Adeus à carne”. Durante a Quaresma, o período de 40 dias antes da Páscoa, as pessoas deveriam se abster do consumo de carne, álcool e de outros prazeres mundanos. O propósito do Carnaval é ter uma última semana de festas antes da abstinência de 40 dias.

As datas do Carnaval mudam todos os anos, de acordo com o calendário da Igreja. A data da Páscoa é determinada pela Lua e geralmente cai entre 22 de março e 25 de abril, e chega-se a ela por uma fórmula feita pelo Conselho de Nicéa em 325 a.C.

3. O Carnaval no Brasil:

Na Páscoa de 1641, quando se comemorou também a Restauração de Portugal, através de uma passeata a caráter onde o governador tomou parte, seguido de simulações de combates, corrida de touros e cavalhadas ou “encamizadas”. Cavalhada era uma espécie de festa, onde se representava a luta entre mouros e cristãos, entre cavaleiros com cavalos ornamentados, sendo doze cavaleiros mouros e doze cavaleiros cristãos representando batalha travada na Idade Média ao tempo de Carlos Magno.

Cavalhada

Cavalhada

4. Outras brincadeiras:

Na época do Brasil colonial, os jovens lançavam entre si limões-de-cheiro. Até mesmo o imperador D. Pedro II participava da brincadeira, conforme noticiado pelo Jornal Gazetinha, de 1882. Mas a folia maior acontecia nas ruas das cidades envolvendo escravos e forros. O conteúdo dos limões-de-cheiro variava de água de chafarizes, a café, groselha, tinta, lama e até mesmo urina. O lançamento de polvilho ou outro tipo de pó completava a molhadeira.

As máscaras de carnaval, disfarces e fantasias eram influenciadas e tinham também origem nos indígenas. Entretanto foram os portugueses que introduziram as máscaras europeias juntamente com as fantasias usadas na Europa.

5. Trecho do livro Viagem pitoresca e histórica ao Brasil

Em seu livro, Jean Baptiste Debret conta:

“O carnaval no Rio e em todas as províncias do Brasil não lembra, em geral, nem os bailes nem os cordões barulhentos de mascarados que, na Europa, comparecem a pé ou de carro nas ruas mais frequentadas, nem as corridas de cavalos xucros, tão comuns na Itália. Os únicos preparativos do carnaval brasileiro consistem na fabricação dos limões-de-cheiro, atividade que ocupa toda a família do pequeno capitalista, da viúva pobre, da negra livre que se reúne a duas ou três amigas, e finalmente das negras das casas ricas, e todas, com dois meses de antecedência e à força de economias, procuram constituir sua provisão de cera. O limão-de-cheiro, único objeto dos divertimentos do carnaval, é um simulacro de laranja, frágil invólucro de cera de um quarto de linha (meio milímetro) de espessura e cuja transparência permite ver-se o volume de água que contém. A cor varia do branco ao vermelho e do amarelo ao verde; o tamanho é o de uma laranja comum; vende-se por um vintém, e os menores a dez réis.”

6. As primeiras modificações

A partir de 1830, a brincadeira passou a sofrer críticas por parte de alguns setores da população levando a repressões policiais e a proibições legais. A festa da rua, popular e negra começou a ser vista como uma manifestação grosseira e perigosa. Em 1841 o entrudo é proibido por sua violência e o povo adaptou o evento, com o intuito de continuá-lo.

Em meados de 1840, um grupo de teatro italiano organizou no teatro São Januário, no Rio de Janeiro, “um carnaval veneziano de máscaras”. Inaugurava-se uma nova fase do carnaval brasileiro, separando os festejos da sociedade branca do entrudo dos negros. Clubes privados passaram a organizar o carnaval para seus sócios em hotéis e posteriormente em teatros existentes à época do Brasil Imperial.

Lojas da Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, anunciavam a venda de fantasias e máscaras. Entre elas, ganhou popularidade as dos personagens da commedia dell’arte italiana – Pierrô, Arlequim e Colombina – que acabaram se incorporando ao folclore urbano e literário nacional.

De 1855 a 1890 o carnaval brasileiro tem uma grande evolução, são criados os clubes carnavalescos, ranchos, blocos e cordões de carnaval.

7. O Carnaval e sua independência

Quando a elite carioca decidiu se afastar do passado lusitano e incrementar a aproximação com as novas potências capitalistas surgiram as Grandes Sociedades Carnavalescas, na segunda metade do século 19. Membros da alta sociedade brasileira saiam às ruas fantasiados em desfiles organizados, aludindo aos mais diversos temas, fazendo uso de fantasias luxuosas e requintadas ao estilo europeu.

A ideia de se deslocar para os bailes em carruagens abertas seduzia a burguesia, que via, aí, uma oportunidade de exibir suas ricas fantasias ao povo e “civilizar” o carnaval.

Paralelamente ao movimento de implantação de uma festa civilizada, outras diversões rapidamente tomavam forma na cidade: os grupos negros de Congadas (ou Congos) e Cucumbis, que aproveitavam-se da relativa liberalidade reinante para conseguir autorização policial para se apresentarem e, além disso, outros grupos reunindo a população carente de negros libertos e pequenos comerciantes portugueses (mais tarde conhecidos como Zé Pereiras), que sentiram-se incentivados a passear pelas ruas.

8. Os primeiros cordões e blocos

O cordões e blocos apareceram no final do século 19, sendo que o primeiro cordão que surgiu com registro histórico remete ao ano de 1886. Mas acredita-se que os Cordões surgiram ao mesmo tempo que as Grandes Sociedades e os Ranchos. O Blocos e Cordões eram formados por grupos de foliões que andavam em fila, com seus participantes caminhando e dançando um atrás do outro e frequentados por pessoas comuns que ser fantasiavam.

Os cordões eram identificados pela figura do “Zé Pereira“, originalmente tocadores de bumbo que acompanhavam procissões em Portugal. Esses personagens se espalharam pelo Rio de Janeiro no século 19 e saíam às ruas cantando o refrão “viva o zé-pereira/ Viva, viva, viva!“. Foram os precursores do surdo de marcação, usado até os dias de hoje pelas escolas de samba. Conduzidos por um mestre que comandava o instrumental percussivo, todos os participantes do bloco com seu apito, os cordões eram formados por foliões fantasiados de palhaços, diabos, baianas, morcegos e índios.

No século 19 havia muitas festas além do carnaval, e muitos destes festejos praticamente desapareceram da tradição como a Festa do Divino, entre outras.

9. As Modernidades no Carnaval

Os limões de cheiro evoluíram para os “lança-perfumes”, enquanto as grandes bisnagas d’água evoluíram para bisnagas de plástico. As limas-de-cheiro ou laranjas ou limões de cheiro, como eram chamados estes objetos de cera, foram usados em várias cidades do Brasil até o começo do século 20, aproximadamente até a primeira década.

Apareceram também as serpentinas e confetes multicoloridos, que davam aos bailes e também à ruas muita vida e aspectos encantadores.

Marchinha: Esse gênero musical tem origem nas marchas populares portuguesas e foi o principal ritmo do Carnaval brasileiro da década de 1920 à década de 1960. Também chamada de marcha de Carnaval, as marchinhas tiveram a pianista Chiquinha Gonzaga como mãe de composição. As marchinhas atingiram seu auge com as interpretações de nomes consagrados da música popular brasileira, entre eles Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, João de Barro, o Braguinha, Noel Rosa, Ary Barroso e Lamartine Babo.

10. As Misturas

A mistura desses diferentes grupos acabaria por forçar uma espécie de diálogo entre eles. Em pouco tempo as influências mútuas se fazem notar através da adoção pelo carnaval popular, das fantasias e da organização características da folia burguesa. As sociedades carnavalescas por sua vez, passaram a incorporar boa parte dos ritmos e sonoridades típicos das brincadeiras populares.

O resultado de tudo isso é que as ruas do Rio de Janeiro veriam surgir toda uma variedade de grupos, representando todos os tipos de interinfluências possíveis. É essa multiplicidade de formas carnavalescas, essa liberdade organizacional dos grupos que faria surgir uma identidade própria ao carnaval carioca. Uma identidade forjada nas ruas, entre diálogos e tensões.

11. As Escolas de Samba

Em 1917 é criado o primeiro samba e a primeira escola de samba carioca (Deixa Falar) foi fundada no ano de 1928, no bairro carioca de Estácio, centro do Rio de Janeiro. Em 1932, começou a competição entre elas, disputada na Praça Onze.
As Escolas de Samba surgiram na virada de 1930 e passaram a ganhar cada vez mais destaque em detrimento do desfile dos Ranchos. Junto com as escolas de samba, naturalmente nasceu o samba-enredo: aquele que narra a história que a escola de samba vai apresentar na avenida.

Esse termo, “escola de samba” foi criado por Ismael Silva, porque os sambistas eram denominados de professores pelo prestígio que possuíam.

12. Os corsos e os ranchos carnavalescos

Muitos festejos aconteciam na Rua do Ouvidor, até 1935, quando as escolas de samba do Rio de Janeiro passam a ser oficialmente reconhecidas e entram na programação oficial da cidade. Passam a desfilar na recém aberta Av. Central, atual Av. Rio Branco, onde se iniciou o “Corso” carnavalesco”.

Corsos Carnavalescos e Batalha de Confete

Corsos Carnavalescos e Batalha de Confete

Os corsos de carnaval e batalhas de confete foram tidos como a nova formatação no século 20 dos antigos desfiles das grandes sociedades carnavalescas que dominaram a segunda metade do século 19.

Os ranchos carnavalescos eram associações que desfilavam pelas ruas ou faziam cortejo de carnaval de forma organizada. Acredita-se que as principais influências vieram de costumes da cultura africana, como Congos e Cucumbis, muito difundidos na cultura popular. Era um cortejo com a presença de Rei e Rainha ao som das chamadas marcha-rancho.

Os Ranchos surgiram no final do século 19 e ganharam muito prestígio e evidência na primeira metade do século 20. Eram mais organizados que os cordões, com mais luxo e refinamento: O instrumental era composto de violões, cavaquinhos, flautas e clarinetas e embalavam mestres-salas, um coro e uma espécie de ala coreografada.

13. A construção da Passarela do Samba ou Sambódromo

Passarela do Samba ou Sambódromo em construção

Passarela do Samba ou Sambódromo em construção

A festa mudou com a transformação da Av. Presidente Vargas no século XX, chamada de Av. Central naquela época. Ali surgiram os cordões, que deram origem aos blocos e escolas de samba.

Com as mudanças dos locais que foram ocorrendo na cidade com as manifestações de carnaval, novamente foram deslocados para a Praça Onze e para os bairros.

Em 1962, o Departamento de Turismo da cidade construiu arquibancadas e implantou a venda de ingressos no circuito das escolas de samba. Vinte e dois anos depois, na década de 1980 foi construída a Passarela do Samba ou Sambódromo como ficou popularmente conhecido.

14. O Atual Carnaval Carioca

O Carnaval Carioca é uma manifestação cultural com diferentes expressões, como desfiles de escolas de samba, bailes de carnaval e os blocos e bandas de rua. Também se caracteriza pela irreverência, pelos nomes de duplo sentido (especialmente dos blocos) e pela diversidade.

15. O desfile das Escolas de Samba na Sapucaí

Cada escola do grupo especial possui 82 minutos de desfile e pode ter 5000 componentes. As escolas têm seus integrantes divididos em alas, e cada ala desfila com a mesma fantasia. Toda agremiação possui uma bateria, com aproximadamente 500 ritmistas, que tocam os instrumentos de percussão. Uma ala de baianas, figura tradicional do carnaval carioca, é obrigatória. A escola que levar menos baianas do que o regulamento prevê, perde pontos.

O desfile começa com 15 pessoas em média, formando a comissão de frente, em geral com uma apresentação teatral ou coreográfica.

As alegorias, que são os carros alegóricos, são espaços reservados para os destaques, figuras centrais do enredo, os passistas são os componentes que desfilam “sambando no pé”, já que as alas não sambam.

Algumas alas apresentam coreografias ensaiadas, atualmente os componentes dos carros também podem apresentar coreografias.

Também fazem parte do desfile os diretores de harmonia (integrantes responsáveis pela organização do desfile), o casal de mestre sala e porta bandeira, responsáveis pela condução do pavilhão da escola. Todos os componentes devem cantar o samba enredo, liderados pelo intérprete, cantor oficial da escola.

Os quesitos julgados são: Harmonia, mestre-sala e porta-bandeira, conjunto, evolução, comissão de frente, fantasias, alegoria, enredo, bateria e samba-enredo.

Desfile na Sapucaí

Desfile na Sapucaí

16. Os blocos de rua

Apesar de o Rio de Janeiro possuir uma tradição muito forte de escolas de samba, o carnaval de rua da cidade também é bastante movimentado.

No ano de 2011, aproximadamente cinco milhões de pessoas brincaram pelos bairros do Rio, embalados pelas tradicionais marchinhas ou por sambas enredo criados pelos compositores de cada bloco, que possui dia e hora para sair, bem como um circuito definido.

O Carnaval Carioca

O Carnaval Carioca nas ruas da Cidade

Alguns blocos famosos: Banda de Ipanema, Imprensa que eu gamo, Bloco do Barbas, Simpatia é quase amor, Sovaco do Cristo, Cordão do Bola Preta, Cacique de Ramos.

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Fontes:
//arteeartistas.com.br/carnaval-jean-baptiste-debret-origem/
//ensinarhistoriajoelza.com.br/carnaval-de-debret/
//www.riodejaneiroaqui.com/carnaval/carnaval-historia.html
//sambacarioca.com.br/samba/historia-do-carnaval-carioca/
//www.camarotecarnaval.com/carnaval-do-rio/historia
//novaescola.org.br/conteudo/3101/o-carnaval-carioca

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